sexta-feira, 9 de março de 2012

Crônica 66: O Conceito


"Quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem" - Rosa de Luxemburgo


Ela vinha quieta. Caminhava lentamente. Roupas simples. Bermuda amarela de malha. Camiseta branca com inscrições de algum partido político. Calçava sandálias Havaianas com borrachas tão gastas que mais pareciam um papel e evidenciavam seus calcanhares grossos e rachados. Unhas vermelhas maltratadas. Descascadas. Cabelos presos em tranças curtas, como uma tiara, usadas para prender seus poucos e quebrados fios. Nas mãos um saquinho de supermercado.

Não. Não era ela que estava comigo na mesa. Mas antes de continuar a história, seja sincero, quando você leu a descrição acima e começou a montar a personagem na sua cabeça, como você a imaginou? Branca, negra, alta, baixa, magra, gorda... Seja honesto consigo...

A pergunta pode soar estranha, mas vai fazer sentido quando ler o “causo” de hoje. Estava sobre a mesa. Como de costume. Acompanhado por um rapaz. Tinha uns 30 anos. Bermuda larga. Camisa social. Um ser, digamos, alternativo. Trazia consigo uma bolsa tiracolo que pendurou na cadeira.

Não me dedure. Por favor. Mas ele tirou um cigarro da tal bolsa. Acendeu. E estava lá. Bem tranquilo. Degustando a mim. Relaxado. Quando nossa amiga do início se aproximou. Muito corcunda. Muito sem graça. Quase como quem jamais é vista. Disse: “Oi senhor, eu não sou bandida, fique tranquilo. Não estou vendendo nada. Nem quero um prato de comida. Eu trabalho ali” e apontou o supermercado que está estabelecido bem próximo a mim.

O rapaz assustado interveio: “por favor senhora, o que é isso? Pare. Porque eu pensaria tudo isso?”. A mulher incrédula olhou para o rapaz, como se não entendesse nada. “Como por quê? Eu sou negra. Pobre. Mulher. Estou mal vestida. Suja”. E completou: “você não está com medo de mim, não?”. “Não”, respondeu rapidamente o jovem.

Os olhos de jabuticaba da interlocutora transformaram-se imediatamente em uma piscina. E, ainda assim, brilhavam. “Mas eu assusto. Sou ‘preta’. Sou pobre. Olhe minhas mãos (esticou-as para frente). Faço reciclagem... Por isso cheiro mal.”.
O moço tremia ao me segurar. Não podia acreditar no que estava ouvindo – talvez você leitor também não acredite. Mas aconteceu. – Como podia? “Sabe, hoje é meu aniversário. Faço 49 anos”. “Parabéns!”. “Eu tenho uma casinha, mas não terei festa... peço que, por favor, não me dê parabéns. O melhor presente hoje foi ter encontrado o senhor. Nunca na vida fui tratada com dignidade. Parabéns ao senhor que é gente toda vida”.

E a primeira lágrima escorreu pelo seu rosto. Segurou a mão do meu amigo. Com força. “É a primeira vez que me tratam assim. Como se eu fosse alguém. Como se ao invés de ser uma simples catadora de papel, eu EXISTISSE.”. Secou seu rosto. Que a esta altura já estava completamente molhado e salgado pelas lágrimas.

A expressão dele é um misto de susto. Assombro. Consternação. Apertou sua mão de volta e olhou-a com ternura. “Bom, era um cigarro que a senhora queria?”. “Sim”. “Tome”. Entregou dois cigarros na direção dela. “Obrigada por não me temer. Nunca vou esquecer este momento. Quando fui alguém. Desejo só o melhor para o senhor.”.

E saiu. Do mesmo jeito que chegou. Corcunda. Simples. Mas com algo diferente. Ela tinha um lindo sorriso no canto da boca. Um sorriso preso. Afinal, pela dureza da vida, não poderia soltá-lo. Mas estava dentro dela. Preso, mas era real.

Ele olhava para frente. Tocou minha xícara. Sem nem olhar pra mim. Deu um gole. Frio mesmo. Engoliu-me todo de uma só vez. Calado. Pensativo. Triste. Incrédulo. Emocionado... Mesmo que com a emoção presa. Ele era um homem. Não podia chorar numa mesa de café. Mas, ainda assim, a emoção estava lá. Presa. Mas estava lá...

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Crônica 65: O Argumento



“Lágrima não é argumento” – Machado de Assis


Amigos queridos, após umas férias merecidas, volto ao batente. E agora, com a mudança realizada, estou localizado próximo ao mar. Sim, novo ano, novo ambiente, novas histórias. Confesso pelo que tenho percebido que as maiores alterações foram a umidade do ar, o calor intenso e a vestimenta dos meus amigos e companheiros. Claro, tem sempre a concorrência da água de coco... Mas nisso eu dou um jeito.


Nem bem me instalei e já se sentou na minha mesa um casal simpático. Ela mais gordinha. Usando roupas justas, pretensamente sensuais. Ele, exibindo estilo indefinível. Numa intenção estranha de se parecer com um surfista. Trajava um bermudão bem estampado. Acho que vi coqueiros nas pernas da tal bermuda. A blusa era bem cavada e laceada – não sei ao certo se pelo uso ou se pelo lado fashion da coisa. Mas fico com a primeira opção.


Num primeiro momento não iam me chamar (o que considero bastante deselegante. Afinal, estão em um lugar chamado “Café”). Eles queriam algo mais fresco (OK. Fazer o que...). Eis que a bela dama lembrou ao namorado que chovia do lado de fora. Precisavam de algo que os aquecesse. Aqui é assim: caiu um pouco a temperatura (talvez de 40 para 29). Pronto. Está frio. E todos tiram seus casacos do guarda roupa. 


Na mesma hora o estranho rapaz mudou de ideia e me convidou a fazer companhia aos dois. Logo percebi um clima estranho no ar. Na hora entendi. Eu havia sido colocado em meio a uma tensa discussão. O tema é o mesmo que permeia as brigas da maioria dos casais. Ciúme. Pois é. A jovem reclamava dos desvios de olhares do enamorado.


“Eu vi ‘tu’ na praia olhando para toda e qualquer bunda que passava! É sempre assim! Não sei por que insisto em ir à praia com você!”. Parou e respirou um pouco.


“Meu Deus. Do que ‘tu tá’ falando? ‘Tá’ doida?”


“‘Tu sabe’ bem do que eu ‘tô’ falando!!! Falo daquele dia...!”


“Tá, daquele dia... Estou aqui com você, poxa... Eu não me incomodei quando ‘tu encontrô’ aquele seu ex e se ‘jogô’ toda pra cima do cara na frente de todos! Mas quer saber de uma coisa: não olho mais pra ninguém quando ‘tu estivé’ com você. Olho quando eu ‘estivé’ sozinho, melhorou?”. Terminou furioso seu discurso.


Momento de silêncio. Não sei bem porque, mas a jovem ficou sem argumentos. Eu teria vários. Mas ela não teve. Calou-se. Não encontrou palavras. No entanto, não podia dar o “braço a torcer”... Baixou os olhos. Demonstrando humildade. E, com algum esforço, conseguiu que algumas lágrimas escorressem pelo canto dos olhos.


O namorado vendo aquela cena comoveu-se. “O que ‘tu’ tem? Foi alguma coisa que eu falei?”. Não. Não era nada do que ele havia falado. Ela sabia que havia pisado na bola com ele no tal dia. Era apenas falta de argumentos.


“Nada”, disse de forma pura e ingênua. Quase acreditando no próprio pesar. “Meu amor, não chora, por favor. Não quis te magoar. Juro. ”Ela, então, fez aquele olhar de baixo pra cima. E para terminar fez um meneio leve com a cabeça. Por fim, disse num tom angelical: “Esquece. Eu não quero brigar. Você vem lembrar histórias do passado. Chato isso. Mas é o seu jeito. Me dá um abraço...” . 


Bom, só pra lembrar: ela iniciou as acusações (com fundamento ou não). Mas, como eu disse, nessa minha mudança as histórias continuam dentro das mesmas problemáticas. Afinal: casais são casais. Cachorros são cachorros, mães são mães, homens são homens, etc ... e Mulheres são mulheres em qualquer lugar e sabem “argumentar” como ninguém!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Crônica 64: As Mãos

Para aquele que se preocupa em observar o outro, as palavras muitas vezes são desnecessárias

Como sempre ela chegou. Antes de sentar fez um aceno ao garçom. Era um simples balançar de dedos. Meigo. Gentil.  Foi atendida prontamente. Impressiono-me, cada dia que passa, nessa minha intensa convivência com a espécie humana. Tão sui generes e tão encantadora. É capaz, por exemplo, de se comunicar das mais variadas formas. Pode ser por um simples olhar. Pela postura corporal. Um menear de cabeça. E até pelo silêncio.
No caso em questão, a comunicação se deu através das mãos. Sim. Quando cheguei à mesa, o ambiente estava agradável. As mãos quietas. Calmas. Delicadas. Tocavam a asa da minha xícara levemente. Usavam a colher para misturar-me. Típico de quem tem o pensamento distante.
Logo o celular tocou. Odeio isso. Não consigo acompanhar a conversa por completo. São apenas fragmentos. Mas deu para notar que o papo não estava bom. E percebi isso novamente por causa das falantes mãos. Em um instante estavam agitadas. Moviam-se freneticamente. Causando um verdadeiro tsunami em mim. Quase fui ao chão diversas vezes. Desagradável...
Mantive-me firme. Sem mãos. Apenas com a asa da minha xícara. Impassível. Tentando me equilibrar. Finalmente a conversa acabou. As mãos, então, calaram-se. Por um breve momento achei eu nem estavam ali. Sossegadas. Apenas arrumando os cabelos ruivos. Vez por outra. Aplicando batom à boca. Mexendo na bolsa.
Novamente o celular. Tremi. Pude sentir as ondas de pavor se dissiparem por todo meu líquido. Mas, agora, a conversa era menos intensa. Ufa! Talvez falasse com algum familiar. Parecia aflita para desligar. Seus dedos rechonchudos com unhas vermelhas, então, resolveram tamborilar por sobre a mesa.  Um som altíssimo para mim. Logo, as tais mãos começaram a arrumar tudo em cima da mesa. Endireitou as toalhinhas. O açucareiro. O adoçante. A xícara. Tudo ficou em perfeita ordem. Desligou.
Pouco tempo depois soa e vibra o tal aparelho novamente. Agora devia ser uma amiga. E minha companheira de mesa tinha novidades interessantíssimas para contar. Assim, os braços entram na história. Eram mãos e braços para todo lado. Movimentos expansivos. Amplos. Relaxados. Eu estava novamente em perigo.
Acabada mais essa conversa, um momento de silêncio e contemplação. Quando o celular finalmente parou de tocar. Ela resolveu ir embora. Como eu sei? Sem uma única palavra. Ela bateu levemente com as duas mãos sobre o tampo da mesa. Tocando apenas as pontas dos dedos.
Virou-se novamente. Procurando o garçom. E novamente fez aquele mesmo aceno do início. Balançando os dedos. Pagou sua conta. E, por fim, abanou a mão para um conhecido. Fazendo o já instituído gesto de adeus. Balançando a mão para um lado e para o outro...

sábado, 10 de dezembro de 2011

Crônica 64: A “Baixo Augusta”

"O novo pode nos assustar. Mas jamais nos paralisar. Afinal, atrás de um rosto diferente do nosso, de uma rua que não conhecemos, de um mundo que não nos pertence, podemos encontrar lindas e deliciosas surpresas" (Cafezinho)

Nem me pergunte como eu fui parar lá... Fato é que, de repente, me vi em meio a uma gente bem diferente e misógina... Em plena Rua Augusta... Ou, como ouvi falar por lá, na famosa “Baixo Augusta”. Mas que bobagem a minha. É claro que você quer saber como um simples cafezinho como eu, foi parar tão longe da sua casa. Afinal, eu penso, converso, ouço... Mas ainda não ando... Tudo bem. Vou te contar a minha recente experiência.
Era um dia daqueles que ao olharmos o primeiro raio de sol, sabemos que será tedioso. Sim. Também tenho dias tediosos. Quando ninguém aparece por aqui. Conversas sem mágica para acompanhar. Dias em que já acordamos com sono. Ou com dor de cabeça. Um mau humor que reina absoluto e faz a vida parecer fora de ritmo. Problemas mil, como a máquina de café emperrada... Basicamente como os dias chatos qualquer um.
Mas, a despeito do meu humor nada favorável que me fazia observar apenas o dia nublado escondido por de trás do céu azul, algo realmente interessante aconteceu. Parou no meu balcão certo alguém diferente das pessoas que eu estou acostumado a papear. Um Jovem. 20 e tantos anos. Vestia-se de preto. Acessórios de tachas. Maquiagem preta nos olhos e, no meio do caminho, pude perceber que suas unhas estavam pintadas de preto também.
Pensei: lá vou eu... No momento em que vi o insuportável copo de isopor sendo preparado com suas igualmente insuportáveis companheiras: tampinha de isopor e colherinha de plástico. Imediatamente percebi que eu seria levado para viagem. Que droga. E com aquele cara. Sei lá. Assumo que pré-julguei. E não me orgulho disso. Mas existe um pouco de humanidade em mim.
Fazer o quê, né? Fomos. Entramos no metrô. Esse transporte eu já conheço. Descemos numa linda avenida da minha cidade – via que andou fazendo aniversário esta semana – logo que saímos da estação tive um impacto. Sai do meu mundinho. Que lugar interessante. Movimentado. Cheio de gente de toda sorte. Um lugar para pessoas rápidas. Desta vez não tive incidentes no metrô. Já na avenida... Foi um tal de tromba daqui, tromba dali. Mas resisti.
Descemos por outra rua e paramos em um bar localizado na esquina de duas ruas. É claro que este ambiente não possuía nada do glamour lá de casa. Achei até um pouco desconfortável. Que passeio, hein? Agora esperar ser consumido. Mas não foi bem isso que aconteceu. Como meu mais novo amigo era calado, passei a observar as pessoas que por ali transitavam e pesquei alguns “drops”... Trechinhos de conversas que significam...
Passavam dois rapazes e uma moça. Vestidos informalmente. Gosto questionável. A moça falou: “menino, sabia que ele ficou milionário depois daquela história...?”, “Jura? Milionário morando no Grajaú?”.
Ao mesmo tempo, passam por nós dois seres... Como posso dizer... Hum... Nada convencionais. Altos demais. Magros demais. Brancos demais. Os dois usavam sobretudos pretos e amassados. Soturnos demais. Adivinha o que os dois cantavam. Rock? Música gótica? Jazz? Não. Eles cantavam – alto demais, diga-se de passagem – o novo sucesso do sertanejo universitário, “Nossa, nossa, assim você me mata. Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego”... Hehehehe
E, por fim, a melhor da noite. Mãe e filha. Chiquérrimas. A mãe olhava para a moça ao seu lado e dizia: “Mas o que é, hein? Agora vc tem a ‘Síndrome de Gabriela’? Eu nasci assim eu cresci assim e sou mesmo sim... Acorda menina!”
Sem falar no grupo de fotógrafos, iluminadores e modelos, que usava o ambiente para produzir um ensaio fotográfico underground. Ali mesmo. No meio de todo mundo. Naquela bagunça organizada... Quase fui fotografado (Risos).
E, assim, fecho meu dia na Famosa “Baixa Augusta”. Um lugar especial. Com pessoas estranhas e diferentemente interessantes. Com assuntos bacanas, assustadores, exagerados... Uma parte viva da cidade. Onde é possível entender um pouco mais de uma metrópole tão eclética como a nossa. E viva a diversidade!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Crônica 62: O Cuidado

"Amigos já são nossos amigos antes mesmo de conhecê-los. Basta que consigamos encontrá-los em meio a multidão..." (Cafezinho)

Algumas situações realmente me comovem. Bem em frente à minha casa, instalaram-se dois moradores de rua. E seu cachorro. Lindinho. Vejo que os dois têm sua rotina diária que inclui uma xícara de café quente lá em casa.
Dia desses, um lindo sábado de sol. Os dois permaneciam ali. Um saía de vez em quando. Voltava. Depois era a vez do outro. “Preciso dar uma volta com o (o cachorro), ele já deve estar cansado de ficar deitado”. Recolheu o pote de água. Pegou uma corda em algum lugar, amarrou no cachorrinho e saiu para dar uma volta.
Um pouco mais tarde. O que era sol virou nuvem. O que era calor virou água. Caiu uma chuva daquelas. Os dois homens contavam apenas com dois trapos para se cobrir. Então, uma senhora trouxe um pequeno cobertor. Daria para apenas um deles se cobrir. Os dois não tiveram dúvidas. Cobriram Zé. Fizeram um tipo de cueiro e colocaram confortavelmente deitado no colo de um deles.
Zé é um labrador. Chegou até nosso morador de rua, quando uma ninhada inteira foi abandonada em uma das praças da região. “Pois é, alguém deixou todos numa caixinha. Sozinhos. Passei por lá, vi e achei melhor não pegar. Resolvi que eles mereciam uma sorte melhor, que viver na rua”, disse ao gerente lá do meu estabelecimento. O Rapaz tomava um café com pão e manteiga, no balcão. Um amigo fiel, esse.
“Mas fiquei encafifado. Passei lá novamente no fim do dia e pensei: se ainda tiver algum, fica comigo. Era um dia frio, quando voltei até a praça, vi o cãozinho. Sozinho. Triste. Com medo. A caixa já estava rasgando. Não aguentei. Ele se parecia comigo. Pensei que poderíamos cuidar um do outro”.
“E aqui estamos”. Continuou. Dividimos tudo. Comida. Água. Calor. Um veterinário aqui do bairro dá sempre uma olhadinha nele. O gerente parecia emocionado. Acabado o lanche, o rapaz voltou para o outro lado da calçada. Levando pão e água para Zé...
Eu, café, achei emocionante o depoimento. E o respeito mantido. Até porque, as notícias que chegam até mim em relação aos animais são péssimas. Um cachorrinho arrastado por um carro morreu, depois de dias de sofrimento. Outro foi arrastado por uma moto. Fora os que são abandonados quando estão doentes ou mesmo velhos. Ou, apenas, porque a família vai se mudar e ele não está nos planos.
É de partir o coração, até de um velho café, como eu...

domingo, 2 de outubro de 2011

Crônica 61: O Estereótipo



Olhar, perceber, constatar. Tudo é válido. Só não vale mais que conhecer, certificar-se, comparar e, por fim, saber. Só assim o ser humano poderá evitar o tão temido julgamento com base no vazio. (Cafezinho)


Sentam-se, como de costume, duas moças. Simpáticas. Faladeiras. Eu chego. Como sempre, também. E, sem grandes novidades, ficamos lá. Observávamos a rua. Eu ouvia a conversa. Elas falavam. Um dia como outro qualquer. Mas é incrível, como em dias como estes. Comuns. Coisas interessantíssimas podem acontecer.
Talvez seja porque estamos distraídos. Esperando que nada aconteça. Talvez seja porque estamos mais abertos ao mundo. Menos defensivos. Talvez seja coincidência. E, ainda, talvez em dias absolutamente normais, como este, você esteja disposto a olhar de uma forma diferente para situações que se apresentam.
Seja pelo “talvez” que for. O que você escolha. Ou ainda um novo talvez... Quem sabe... Fatos acontecem. Assustam-nos. Deixam-nos admirados. E por tão pouco. Por um detalhe. Continuando. Permanecíamos lá. Na mesa. De repente, passa um carro – que sem dúvida – era de um modelo já bem ultrapassado. Algumas batidas conferiam a ele uma antipatia imediata.
Dentro do veículo, três rapazes. Sem camisa. Com chapéu de Cowboy. O som que saía dali era ensurdecedor. A música era sertaneja. Claro. Digo isso pelo chapéu. A nós, pareceram pouco amigáveis. Imediatamente incluímos os três na lista de bêbedos idiotas, metidos, chatos, ignorantes. E por ai vai. Isso tudo em cinco segundos. E confirmamos nossa impressão, no exato momento em que brecaram abruptamente. Fazendo aquele barulho que causa arrepios.
“Que idiotas. Estão querendo aparecer... Disse umas das minhas apreciadoras”.
A outra limitou-se a um sorrisinho irônico. Como se bradasse: dispensa comentários.
No entanto o carro parou. Alguns metros à frente. Ué. As duas olharam para a rua. Viram um passarinho parado no meio da via. “Ai meu Deus. É uma rolinha. Deve estar doente. Vou tirar ela de lá... Por isso eles brecaram tão forte...”. Levantou-se heroicamente na direção da ave.
Ao chegar lá. Surpresa. O rapaz, antes ignorante, idiota, metido, chato, etc, etc. Já havia chegado. Por isso parou o carro a alguns metros no meio da rua. Quando viu a cena. Nossa heroína, um tanto quanto atrasada, sentiu-se mal. Tão mal. Ruborizou.
“Eu ia justamente fazer isso....”.
“Eu quase atropelei ela. Você viu?”
“Vi, sim...”
“Pois é... Ainda bem que eu percebi a tempo. Mas o próximo motorista pode não ver e passar por cima...”
E com mãos delicadas, em atitude absolutamente oposta a sua aparência, retirou com todo o cuidado o passarinho dali. Colocou-o na calçada. E antes de voltar para o carro, certificou-se de que tudo estava bem. Deu adeus à moça. Atônita. E seguiu seu caminho. Com o mesmo carro semi-desmilinguido. O mesmo som alto. E a mesma camisa no ombro. Minha amiga voltou para a mesa. Chocada. “Jamais esperei uma atitude tão gentil de alguém com um estereótipo tão grosseiro”. Imediatamente sua parceira deu risada e brincou: “os brutos também amam”. Não, disse a outra. “Aceitar, analisar, julgar os outros através de estereótipos é que é inconcebível...” 

domingo, 25 de setembro de 2011

Crônica 60: O Tédio


Em todo reencontro há um tédio implícito. O tédio da distância reaproximada. O tédio da notícia velha. O tédio da história passada. Todo reencontro é tediosamente bege. (Cafezinho)

Entre o chove e não molha do dia em questão. Dos poucos convivas que passaram por aqui. Fiquei eu, a pincelar algo de interessante. Mas, nas primeiras horas de funcionamento da minha casa, nada, realmente nada, aconteceu. Uma criança levada aqui. Um circunspecto senhor ali. Enfim, comunicação e reflexão, zero.
E quando achei que tudo estava pedido e que esta semana não teríamos histórias para contar neste saboroso blog, entram duas senhoras distintas. Sem muitas descrições dessa vez. Apenas isso, duas senhoras distintas.
Mais que depressa me convidaram a sentar. Algo muito “interessante” aconteceu. Aproximei-me devagar. Interessado no que sairia dali, já que até o momento meu dia estava mais chuvoso aqui dentro, do que do lado de fora. Acomodei-me. Olhei para uma. Para a outra. Nem uma única palavra saía daquelas bocas cheias de batom. Melecaram-me inteiro. Ao menos não puseram açúcar. Estava puro.
Nem mesmo olhavam uma para outra. De repente. Um “entreolhos”. Que alívio. Agora vai. Não foi desta vez. Em uma tentativa de comunicação... Está bom seu café? Ótimo querida e o seu? Ótimo também. O cafezinho aqui é excelente.
Calaram-se novamente. Um silêncio plácido. Sereno. Sem mágoas ou rancor. Amor. Paixão. Ódio. Desprezo. Nenhum desses sentimentos. Bastante nobres. Todos eles. Nenhum sinal de sentimento à vista.
Uma delas arrumou a saia. A outra ajeitou o cabelo. Foram ao banheiro revezadamente. E para minha surpresa... Mais um café. Afinal, sou mesmo uma delícia, né? Olhavam a paisagem. Cuidavam das bolsas. Uma delas tirou um apoio para sua tira-colo. Um gancho dourado. No qual a bolsa ficava pendurada de baixo da mesa. Imediatamente, a outra também tirou seu artefato da bolsa. “Bonito seu gancho. O meu tem aplicação de strass”.
Bolsas instaladas. Continuaram em seu clássico silêncio. Eram duas perfeitas figuras barrocas. Brancas. Com duas bochechas artificialmente rosadas. Olhinhos azuis brilhantes. Tailleur Chanel. E sapatos brilhantes. Não fujo da descrição, não é mesmo?
Os movimentos lentos. O que contribuiu com a longa estada das duas por casa. “Seus filhos e netos. Como estão?”. Todos bem... Lucinha se separou... Ah! Que pena. Era um casal tão bonito. Pois é. Hoje em dia casais perfeitos também se separam.
Bom. Querida. Muito bom revê-la depois de tantos anos sem notícias suas! Preciso ir.  Realmente. Foi muito boa a nossa conversa. Precisamos marcar mais vezes. Deram dois beijinhos. E foram. Eu fiquei ali. Confuso. Tentando entender a importância daquele silêncio. Ou daquela conversa.